Civilizações perdidas, agronegócios falidos e a volta das florestas

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Civilizações perdidas, agronegócios falidos e a volta das florestas


Templos maias do século 9 cobertos pela floresta em Tikal, na Guatemala. Foto: Fabio Olmos.

“Meu nome é Ozymandias, rei dos reis:
Contemplem minhas obras, ó poderosos, e desesperai-vos!”
Nada resta: junto à decadência
Das ruínas colossais, ilimitadas e nuas
As areias solitárias e sem fim estendem-se à distância.

Ozymandias, de Percy Shelley (1818).

Há 10 mil anos atrás, mais ou menos quando Raul Seixas nasceu, nossa espécie já havia ocupado todo o continente americano, do Alaska à Patagônia e Brasil. Essa invasão de ecossistemas por um superpredador piromaníaco resultaria em uma das maiores extinções em massa dos últimos milhões de anos.

O crescei e multiplicai-vos causou migrações e invasões que, houvesse história escrita, inspirariam séries no estilo Game of Thrones. O DNA extraído de crânios antigos mostra como os povos originais do que é hoje o sudeste do Brasil foram substituídos por imigrantes 9 mil atrás, e como os povos dos sambaquis, parentes dos Botocudos, foram substituídos pelos Tupi (veja aqui).

Substituições são um termo neutro para um processo que, pela leitura dos genes, foi similar ao da substituição dos povos ameríndios por europeus e africanos.

A extinção da megafauna e o aumento da população muito provavelmente incentivaram o surgimento da agricultura nas Américas uns 8-10 mil anos atrás, incluindo na Amazônia, e a ascensão de civilizações complexas há mais de 5 mil anos.

Quem visita as ruínas maias no México, Belize e Guatemala é testemunha do grau de sofisticação dos descendentes dos caçadores-coletores que fizeram sua América. E também testemunha uma história muito familiar.

A civilização Maia clássica, que construiu cidades enormes, dependia da agricultura intensiva e tinha seu tecido social mantido por elites políticas e religiosas, colapsou no século 9 quando uma seca amplificada pela destruição ambiental destruiu a economia baseada no agronegócio. E a classe dominante foi incapaz de oferecer soluções.

Dos maias clássicos à Síria moderna, colapso ambiental levando ao colapso social é algo recorrente (leitura obrigatória é… Colapso, de Jared Diamond. Mas, fogo e sangue à parte, o mais interessante é que aconteceu depois que as plantações e as cidades foram abandonadas.

O povo maia continua a viver na sua pátria, mas sua civilização nunca voltou a ser o que era. Como na Chernobyl livre de pessoas depois do desastre nuclear, florestas reocuparam o antigo território humano com árvores que ocultam palácios de reis e templos de deuses cujos nomes só não foram esquecidos porquê escritos em algum lugar.

O famoso observatório astronômico em Calçoene, Amapá. O “Stonehenge Brasileiro” data do ano 1000 e construído por uma civilização Arawak.

Embora as sumaúmas de 40 m de altura e os muitos macacos-aranha e outros bichos impressionem quem visita ruínas como Tikal, a composição dessas florestas mostra sua origem. Elas são dominadas por espécies cultivadas, especialmente o sapoti e as que restavam em fragmentos protegidos de alguma forma já que madeira e lenha eram necessários. O que se vê nas ruínas maias é o que veríamos se São Paulo ou Rio sofressem uma terapia de O Mundo Sem Ninguém e aguardássemos 1.200 anos.

Quem gosta de arqueologia conhece “cidades perdidas” e outras ruínas que foram abandonadas e cobertas por florestas. Estas vão de capitais imperiais como Angkor Wat – outro exemplo de colapso climático – a bases militares soviéticas abandonadas após o colapso de outro império.

A Amazônia artificial

Em 1541 o conquistador Gonçalo Pizarro e sua tropa empreenderam uma expedição épica de Quito, no Equador, à foz do rio Amazonas. Documentada pelo dominicano Gaspar de Carvajal, a expedição – que deveria inspirar uma série no Netflix – encontrou uma Amazônia densamente povoada por civilizações guerreiras que construíam cidades cercadas por muralhas e fossos e viviam da agricultura e da pesca.

Exploradores posteriores não encontraram as cidades descritas por eles, muito menos uma Amazônia pululando de pessoas. Por muito tempo se acreditou que o relato era uma “verdade alternativa” e antropólogos e arqueólogos achavam que a Amazônia sempre havia sido um “deserto verde”.

Hoje, a arqueologia e a etnologia confirmam o longo histórico da agricultura na região, os relatos de Carvajal sobre a existência dessas civilizações e descrições de costumes como a escravidão por sociedades complexas que não eram exatamente igualitárias.

Estimativas recentes são de que milhões de pessoas viviam na Amazônia quando da chegada dos europeus e as marcas desta presença são visíveis nas grandes manchas de terra preta (formada pelo acúmulo de cinzas, carvão e restos orgânicos), na abundância de geoglifos, aterros e outros vestígios arqueológicos, e na própria composição macro da floresta.

O sumiço das civilizações amazônicas depois da chegada dos europeus foi parte de um drama maior que aconteceu em todas as Américas. Patógenos trazidos pelos europeus e seus pets dizimaram as populações ameríndias do Ártico à Patagônia e abriram caminho para a ocupação europeia. História contada e recontada por diferentes autores, incluindo Jared Diamond no já clássico Armas, Germes e Aço.

”“O sumiço das civilizações amazônicas turbinou o que já estava acontecendo havia algum tempo nas abandonadas cidades maias. Árvores voltaram a crescer sobre as plantações e cidades de incontáveis povos cujos nomes foram esquecidos. Com consequências planetárias”

Isso turbinou o que já estava acontecendo havia algum tempo nas abandonadas cidades maias. Árvores voltaram a crescer sobre as plantações e cidades de incontáveis povos cujos nomes foram esquecidos. Com consequências planetárias.

Trabalho recém publicado estima que 56 milhões de pessoas (de um total de 64 milhões) morreram nas Américas após a chegada de Colombo, resultando em vastas regiões onde não havia ninguém para fazer o que humanos fazem melhor (simplificar ecossistemas) e, incidentalmente, na extinção dos seus pets parceiros na extinção da megafauna.

A partir dos bosques e bancos de sementes sobreviventes, e com a ajuda de dispersores como aves e morcegos, as florestas começaram a crescer em grande estilo.

Estima-se que 55,8 milhões de ha de florestas cresceram nas Américas ao longo do século 16, e junto com outros sumidouros ativos desde os 1300s, como o Império Mongol e a África  dominada pelo comércio de escravos.

Estas florestas em regeneração, especialmente em regiões como a Amazônia, sugaram CO2 da atmosfera em quantidade suficiente para resfriar o planeta, causando a famosa “Pequena Idade do Gelo” que durou até os 1800s.

Florestas em regeneração afetarem o clima do planeta mostra a conexão profunda entre sistemas planetários e a biosfera, incluindo as atividades humanas.

A regeneração que se seguiu à Grande Mortalidade é uma prova de conceito do mecanismo mais eficiente e barato para retirar CO2 da atmosfera: a restauração florestal em grande escala.

Nosso conhecimento sobre a composição das florestas amazônicas vem de uma rede de mais de um milhar de parcelas espalhadas pela bacia. É conveniente que parte está em antigas áreas de ocupação humana.

Das c. 16 mil espécies de árvores e palmeiras inventariadas na Amazônia, meras 227 espécies representam 50% dos indivíduos, enquanto outras 11 mil (!!!) somam apenas 0,12% (!!!!!). A maioria das 227 é de espécies utilizadas pelas pessoas ou associadas a regimes de perturbação regular.

De 85 espécies consideradas cultivadas pelos antigos amazônidas, 20 são hiperdominantes, a maioria com distribuição ampla na bacia amazônica. As outras dominantes tendem a ter distribuições limitadas e, no caso daquelas dispersas por macacos e outros animais, são mais comuns longe dos sítios arqueológicos e rios, que são as estradas da região.

Ilhabela, em São Paulo, tem mais florestas hoje que na década de 1950 graças ao colapso do agronegócio.

Enquanto interações ecológicas tendem a criar diversidade e moderar o jogo de soma zero da competição, a ação humana favorece apenas umas poucas espécies uteis, oportunistas ou sortudas, e torna todo o resto raro ou extinto.

É o que dizem milhares de espécies de árvores raras e ameaçadas de extinção (sabe-se lá o que foi extinto sem deixar rastro) dominadas por um par de centenas de espécies de capoeira e escapados de pomares.

Muito já foi escrito sobre como as civilizações amazônicas viviam de maneira “sustentável” e como a floresta atual seria um “artefato humano”, um pomar plantado pelos antigos.

Me parece um exagero considerar que árvores crescerem quando pessoas desaparecem ser um indicador de sustentabilidade do estilo de vida dos antigos. Ainda mais quando sua atual raridade mostra que milhares de espécies foram prejudicadas.

Na verdade, a floresta amazônica atual parece tão artefato humano – tão planejada e executada – e tão indicador de sustentabilidade quanto as florestas de Tikal, Angkor ou Chernobyl. Ou de Ilhabela e Vale do Paraíba.

Mais civilização, mais árvores

Hecatombes são dramáticas, mas florestas também crescem quando o agronegócio entra em falência por perda de competitividade, fim de subsídios ou revoluções sociais e políticas. Já abordei o assunto faz bastante tempo mas há vale lembrar alguns casos.

Na Europa, fatores econômicos e o êxodo rural resultaram no abandono de milhões de hectares de terras agrícolas. Graças a isso e ao reflorestamento a Europa hoje tem mais florestas do que um século atrás. Expansão que que deve continuar e está favorecendo bichos como ursos, linces e lobos.

Por aqui, as plantações de café do Vale do Paraíba já foram o motor econômico do Brasil. Responsável por um desmatamento brutal, esse agronegócio se autodestruiu e foi substituído por uma pecuária de baixíssima produtividade. História lindamente contada no documentário O Vale, de Marcos Sá Corrêa e João Moreira Salles.

O êxodo rural e o declínio da pecuária nas últimas décadas têm permitido que florestas voltem a crescer nessa paisagem destruída. Na porção paulista do Vale a área de florestas saltou de 200 mil ha em 1962 para 450 mil em 2011. Seria maior não fossem os incêndios nos sapezais.

As primeiras plantas crescem nos escombros do edifício Wilton Paes de Almeida, incendiado e desabado no centro de São Paulo em 1º de maio de 2018. Mais 20 anos sem perturbações e ali existirá um bosque.

Ali do lado, o retorno das florestas ocorreu no litoral de São Paulo, onde plantações de banana, arroz, cana e café foram abandonadas com o colapso de portos regionais a partir dos 1940-50. Estas acabaram se tornando parte de áreas protegidas como a Estação Ecológica da Juréia e os parques estaduais da Serra do Mar e Ilhabela.

O último Censo Agropecuário mostra que esse processo está em curso na região brasileira mais vulnerável às mudanças climáticas. A área destinada à agropecuária no Nordeste brasileiro caiu quase 10 milhões de ha (um Pernambuco) nos últimos 11 anos graças a um regime de secas que veio para ficar.

Resultado das mudanças climáticas que tornaram os últimos anos os mais quentes na História deverá tornar a vida cada vez mais difícil para nosso setor que mais contribuiu para isso: a agropecuária.

A História mostra que as florestas em particular e a biosfera em geral agradecem quando seres humanos deixam o palco. Mas a mensagem não precisa ser entendida em termos de despovoamento terapêutico ou colapso econômico planejado.

Pesquisas recentes mostram que países que têm visto seu Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) crescer tendem a ter florestas em expansão. Isso é algo novo na história da humanidade.

Há uma série de questões sobre essa associação, incluindo o que é classificado como “florestas” nestas estatísticas. Mas há espaço para otimismo. Coisas que todos queremos, como melhores índices educacionais, menor desigualdade econômica e menor desigualdade entre sexos, resultantes de melhor educação e economias baseadas no conhecimento, têm correlação positiva com o retorno das árvores.

Sociedades que atingiram um certo patamar de bem-estar social tendem a ser mais eficientes no uso da terra – a intensificação da agricultura acoplada à urbanização são chave – e a sofrer mudanças culturais que resultam em espaços sobre os quais as florestas podem voltar a crescer.

Esse é um projeto de futuro que deveríamos abraçar.

 

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Wander Delgado
Wander Delgado
Químico, especialista em meio ambiente e gestão de resíduos, contabilidade industrial e viabilidade técnico econômica.