Dono de cão vive dilema entre tratar e sacrificar seu pet com leishmaniose

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Dono de cão vive dilema entre tratar e sacrificar seu pet com leishmaniose


Marina EstarqueCláudia Collucci
SÃO PAULO

Até um saco de ração com um golden retriever na embalagem é motivo de sofrimento para a farmacêutica Josélia Frade, 45. A imagem a faz lembrar da sua cachorra Bela, sacrificada há um mês após ser diagnosticada com leishmaniose visceral em Brasília.

Pensar na cachorra traz recordações de outra perda: uma tia próxima, considerada uma segunda mãe, morreu da mesma doença há um ano.

Causada por um parasita, a leishmaniose é transmitida por mosquitos. No Brasil, o inseto é infectado ao picar o cachorro, principal reservatório da doença em áreas urbanas. Em humanos, o tratamento com remédios é feito no SUS.

Ainda que os casos estejam estáveis desde os anos 2000 no país, a leishmaniose visceral humana passou por uma expansão geográfica. Chegou a novos estados, como Rio Grande do Sul, e atinge cada vez mais municípios.

Em São Paulo, segundo estudo da Unoeste (Universidade do Oeste Paulista), a doença se espalhou e se aproxima da capital. Em 2016, foram 3.200 casos no país e 85 em SP.

O avanço da doença preocupa Josélia. Com três filhos, ela afirma que a morte de Bela abalou a família. “O quintal está vazio. O saco de ração no petshop, o passarinho que ela gostava, tudo me faz lembrar dela. Só quem gosta de bicho sabe o quanto a gente aprende a amar essas criaturas”, diz Josélia, que chora de soluçar ao falar da perda.

Uma das filhas, de 17 anos, quase desmaiou quando soube do diagnóstico. “Ela teve que deitar no chão da clínica. Foi um choque, não fazia um ano que a tia havia morrido.” Os casos, em locais distintos, não tinham conexão.

Segundo Josélia, o documento com o resultado do exame, realizado no centro de zoonoses do Distrito Federal, afirmava que o animal deveria ser sacrificado, “segundo as normas estabelecidas pelo Ministério da Saúde”. O exame mencionava também possíveis punições caso a medida não fosse cumprida.

Procurado, o Ministério da Saúde diz que mudou a orientação em 2016, quando a droga Miltefosina foi aprovada pela pasta da Agricultura. Com isso, tratar cães com leishmaniose visceral, com esse remédio, se tornou legal —notícia que não chegou a Josélia.

Antes o Ministério da Saúde afirmava que todos os animais com a doença precisavam ser sacrificados. No entanto, muitos donos, especialistas e até instituições públicas não sabem da mudança.

A vigilância ambiental do DF diz aplicar o protocolo do ministério e aguardar eventual modificação. Josélia ficou surpresa. “Estou com o coração partido. Minha decisão foi tomada com base nisso.”
Reservatório

Uma controvérsia do tratamento em cães é que a Miltefosina melhora os sintomas e reduz a carga parasitária, mas não elimina o protozoário por completo. Por isso, o animal pode continuar como reservatório. Especialistas afirmam que, em tratamento, o risco de transmissão cai, mas não há garantias de que o cão  não vai infectar o vetor.

“Não há um consenso sobre isso. No Brasil há poucos estudos independentes. Liberar o remédio para cães é perigoso”, diz o infectologista Luiz Carneiro, da Unoeste.

O risco também foi considerado por Josélia —que, além disso, achava que o medicamento era proibido. “Depois de ter perdido uma tia, como ia manter um reservatório da doença em casa, com três filhos pequenos, em área endêmica? Se o vizinho ficasse doente, de quem seria a culpa?”

Segundo o Ministério da Saúde, o tratamento deve ser combinado com repelentes, como coleiras ou os chamados pour on, para reduzir o risco de transmissão ao vetor.

Josélia conta ainda que foi julgada por veterinários. “Todo mundo quer tratar o cão. Me senti um monstro”, diz.

Quem opta pelo tratamento também pode passar por dificuldades. A nutricionista Mariana Parussolo, 26, mora em Guarulhos (SP) e gastou mais de R$ 2.800 com remédios para sua cachorra, a Cacau. Ela e o marido têm renda de R$ 4.000 mensais e um bebê de sete meses. “Em outubro, começamos com remédios e a Miltefosina. Eram 13 por dia”, diz. Para custear o tratamento, o casal vendeu rifas.

A cachorra reagiu bem, mas, em fevereiro, os sintomas voltaram. Por enquanto, Mariana não tem condições de comprar mais Miltefosina.

“Eutanásia não é uma opção. Se tenho uma doença contagiosa, não vou me matar, como vou fazer isso com a Cacau, que é como uma filha?”, diz. Para se proteger, a família usa repelente, e a cachorra, a coleira inseticida.

Veterinários dizem que os donos precisam ser informados sobre a complexidade e os problemas do tratamento.

Para o presidente da Comissão Nacional de Saúde Pública do Conselho Federal de Medicina Veterinária, Nélio de Morais, a Miltefosina foi um avanço. “Mas o tratamento é caro, as recaídas são comuns e alguns não sobrevivem. O cão tem que ser monitorado para sempre”, diz.

A professora da Unesp Mirela Tinucci Costa, do Conselho Regional de Medicina Veterinária de SP, ainda recomenda a eutanásia quando o dono não pode pagar pelo tratamento. “Não podemos esconder que o remédio não é curativo. O dono precisa estar consciente disso.”

Por ser caro, muitos abandonam o tratamento. “As pessoas não têm essa responsabilidade. Por isso, ainda vejo a eutanásia como uma medida de saúde pública importante”, diz o médico Angelo Lauletta Lindoso, do Instituto de Infectologia Emílio Ribas.

Ele afirma ainda que o uso do remédio em cães pode tornar o parasita resistente à Miltefosina. No Brasil, ela não é aplicada em humanos, mas em outros países sim. “Isso pode ser um problema se um dia a gente precisar da droga para os humanos”, diz.

Apesar das dificuldades do tratamento, há casos em que o cão se recupera e passa a levar uma vida quase normal.

Foi assim com Joca, resgatado no Rio pela veterinária Carolina Montemurro, 34. Tratado desde julho com Miltefosina, o cão não teve recaída. Após a experiência, ela criou página sobre o tema na internet. “Quero mostrar que a doença tem jeito. Tratar o Joca foi a melhor decisão que tomei.”


ENTENDA

Como funciona o tratamento?
O cão precisa tomar um coquetel de remédios e suplementos, incluindo a Miltefosina, e ser monitorado com exames e consultas regulares para o resto da vida. O tratamento é muito caro —só a Miltefosina pode custar entre R$ 800 e R$ 1.800. Exames, como de cultura de medula e de sangue, também pesam no bolso

Há cura para o cão?
Não, o tratamento reduz a carga parasitária e melhora os sintomas, mas não elimina o protozoário. O cão pode ter recaídas e precisar repetir as doses de Miltefosina

O tratamento pode ter efeitos adversos?
Sim, a Miltefosina é um remédio forte, concebido como um quimioterápico. Há cães que não sobrevivem ao tratamento, principalmente os que já estão muito debilitados pela leishmaniose

Como evitar que o cão doente infecte o mosquito? 
Além do tratamento, use a coleira inseticida ou repelentes conhecidos como pour on. Ajude a controlar o vetor com limpeza do quintal

Quando a eutanásia é indicada?
Sempre que o dono não quiser seguir o tratamento com a Miltefosina ou não tenha condições financeiras para tal. Também é indicada para animais em estágio avançado da doença

O dono pode ser punido caso não faça a eutanásia nem siga o tratamento de forma correta?
Sim, ele pode ser acusado de crimes contra saúde pública. O artigo 268 do Código Penal prevê detenção de até um ano e multa para quem infringir determinação destinada a controlar doença contagiosa. Também há punições na legislação sanitária federal (lei 6.437)

Como proteger um cão saudável? 
Use coleira inseticida ou repelentes pour on. Vacine o animal contra a doença. São três doses iniciais e, depois, uma por ano para manter a imunização

Qual é a eficácia da coleira e da vacina?
Segundo Anaiá Sevá, doutora em medicina veterinária pela USP, a coleira é 92% eficaz para prevenir a picada do mosquito. Já a vacina tem eficácia de cerca de 70%. “Nenhuma medida é 100%, por isso recomendamos combinar várias”, diz

O que mais deve ser feito como prevenção?
Instalação de telas na casa do cachorro ou nos ambientes em que ele circula. Limpar o lixo e material orgânico em decomposição acumulado nos jardins (folhas, frutos, fezes de animais), para evitar que o mosquito se desenvolva.

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Wander Delgado
Wander Delgado
Químico, especialista em meio ambiente e gestão de resíduos, contabilidade industrial e viabilidade técnico econômica.